Hoje, dia 10 de março de 2011, fui assistir ao filme Cisne Negro, depois de muitas recomendações. Confesso que não estava muito animado com o tema e fui mais por insistência de alguns conhecidos, aos quais devo agradecer pela maravilhosa experiência.
Entrei na sessão previamente preparado para um “drama psicológico”, como haviam descrito à minha pessoa e procurei durante todo o longa, como um bom aluno de psicologia, traços que denunciassem este drama. Entretanto, o que encontrei foi uma verdadeira [e maravilhosa] aula sobre psicanálise.
O filme conta a história de uma jovem dançarina chamada Nina Sayers, uma garota bonita, meiga e tímida que vive com sua mãe Erica, uma ex-dançarina que largou sua carreira ao engravidar. Pode-se dizer que Nina vive para o balé, sendo altamente rigorosa consigo mesma a cada movimento esquematizado por sua técnica.
Quando o diretor Thomas Leroy anuncia a nova temporada, onde será realizado o clássico O Lago do Cisne, Nina vê sua chance de brilhar e subir profissionalmente. Durante o teste para o papel principal, apesar da magnífica apresentação para incorporar o Cisne Branco com uma dança meiga e carinhosa – como a própria personalidade da dançarina –, nossa protagonista encontra dois obstáculos: o fato de sua dança não demonstrar toda a sensualidade necessária para o Cisne Negro e uma rival em potencial, Lily, uma nova dançarina que parece atrair o olhar do diretor com sua forma natural de dançar.
Após saber a opinião do diretor a respeito de sua dança, encontramos uma Nina com baixa auto-estima e tristonha, mas que encontra um amparo nos braços de sua mãe, que apesar de se preocupar com a carreira da filha, trata-a de forma infantil. No dia seguinte, após uma seqüência de fatos, Nina descobre que conseguiu o papel principal e imediatamente liga para sua mãe, como qualquer criança o faria.
Conforme os ensaios vão passando, cada vez mais Nina percebe a dificuldade que tem em si mesma de trazer à tona a sensualidade necessária para encarnar o Cisne Negro e percebe que, para isso, precisará inverter e/ou se desvincular de algumas idéias que trazia antigamente.
É nesse momento em que podemos entrar na análise psicológica do filme.
Em primeiro lugar, temos uma mãe que vê na juventude infantilizada da filha e em sua carreira um significante fálico do que ela mesma não pode ter. Em segundo lugar, temos uma dançarina que precisa revelar uma sensualidade contida dentro de si mesma para interpretar um papel. Precisa liberar uma libido contida há muitos anos, além desta ver uma rivalidade com sua colega de trabalho a menos que consiga atingir o status da perfeição, tão almejado.
A primeira cena do filme nos introduz a um sonho de Nina, onde esta se vê interpretando o Cisne no exato momento da transformação. Este sonho, além de representar a vontade explicita de fazer o personagem, nos leva ao simbolismo do desejo oculto de libertar a libido, representado como o Cisne Negro.
O Cisne Branco em contraste com o Cisne Negro simboliza não só o dualismo do consciente contra o inconsciente, respectivamente, mas também – e mais forte ainda – o corpo mental da criança, antes fragmentado que deve ser unificado, segundo a Psicanálise. Esta comparação é vista com clareza pela quantidade de espelhos em que Nina passa o dia se olhando, metaforizando o Estagio do Espelho, de Lacan. Outro aspecto é Erica pintar o rosto da filha em telas, mostrando uma obsessão fálica, onde estas pinturas representam para Nina outras formas de espelho. A analogia do espelho é formulada a partir do momento em que Nina começa a ter alucinações pelo reflexo, onde sua imagem virtual se revela como o Cisne Negro.
“A única coisa no seu caminho é você mesma” foram as palavras do diretor Leroy para sua nova protagonista. Leroy sabia que Nina teria facilidade de interpretar o Cisne Branco e dificuldade para revelar o Cisne Negro. Em outras palavras, Nina deveria passar por uma experiência límbica para juntar as peças fragmentadas de sua existência.
Após Nina ser anunciada a público como protagonista, esta se depara com a estátua negra de um anjo, que simboliza o Cisne Negro preso, adormecido, congelado, petrificado em algum lugar. Embora Nina saiba e, ainda que receosa, queira passar por tais transformações – indicado ao realizar o “dever de casa” passado pelo direto -, a jovem tem uma ajuda particular do Cisne Negro, parecendo vir diretamente do inconsciente e se personificando na forma de Lily em sonhos acordados.
Nina vê as asas negras do cisne ganharem vida na tatuagem nas costas de Lily/Cisne, projetadas de seu inconsciente. Este cena, junto à saída de Lily e Nina, apesar da reprovação da mãe de nossa protagonista, representam o processo de unificação. É neste momento em que o Cisne Negro começa a nascer, deixando a personalidade do Cisne Branco de lado em Nina.
O ultimo dualismo ocorre junto ao clímax do filme, quando Nina mata sua amiga Lily. Após esconder o corpo e dança o Cisne Negro divinamente (para esta parte, vale a pena comentar os efeitos de penas negras crescendo em todo o corpo da dançarina). Quando chega o desfecho da peça, onde o Cisne Branco se mata, vemos a morte de Nina.
Como ela morre? Com um pedaço de vidro, quebrado de um espelho, enfiado na barriga. “Freud teria um orgasmo com este desfecho. E com razão”, como disse Pablo Villaça.

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